
Finalmente arrumei um cinema onde não houvesse filas quilométricas para assistir ao mais novo filme do Batman, "O Cavaleiro das Trevas".
E posso dizer que é o melhor filme de super-herói que eu já vi. Christopher Nolan, o diretor, pegou o clima realista e "pé no chão" do primeiro (
Batman Begins) e o amplificou à enésima potência. Lá pelas tantas, eu esqueci que estava vendo um filme cujo personagem principal é um sujeito que veste uma roupa de morcego; há todos os elementos de um bom
thriller policial no filme de Nolan e as duas horas e meia passam voando.
Quem espera um filme tradicional de super-herói, com montes de efeitos especiais e piruetas malucas, pode esquecer. Nolan mergulha ainda mais no caráter sombrio do Batman, trocando as piadas fáceis por densidade psicológica - é quase um filme de super-herói para adultos, a despeito da idade mínima ser 12 anos. Batman aparece aqui como um sujeito atormentado e no limite da insanidade, dividido entre ser o herói que Gotham City precisa e tentar ter uma vida normal, passando o cetro para outros tipos de herói, como o promotor Harvey Dent, que move uma cruzada contra os mafiosos de Gotham. Mafiosos esses que, em certo momento, acabam por recorrer aos préstimos de um novo e perigoso maníaco - o Coringa.
Com toda a comoção causada pela morte prematura do intérprete do Coringa, o ator Heath Ledger (este foi seu último filme), parece que elogiar a interpretação dele é quase uma questão de
noblesse oblige - não se deve falar mal dos mortos. Mas Heath não precisa disso - seu Coringa é o melhor vilão do cinema nos últimos tempos e sua interpretação é verdadeiramente vulcânica. Como o próprio personagem diz a certa altura, ele é um agente do caos - e é isso o que o torna assustador, um punk psicótico cujo único objetivo é causar morte, anarquia e destruição. Ledger imprime essas características ao personagem numa composição cuidadosa, desde a voz até o jeito de andar e a maneira de olhar. Não é à toa que estão falando em Oscar póstumo para o ator.
Isto não quer dizer que ele necessariamente rouba a cena do Batman ou dos demais personagens - Nolan tem extremo cuidado em fazer com que todos os envolvidos na trama deixem sua marca, e nenhuma é mais trágica do que a do promotor Harvey Dent, que ao longo do filme se transforma de paladino da justiça em um homem torturado e à procura de vingança.
Claro que há as cenas de ação, os momentos de adrenalina, mas eles nunca estão lá para roubar o foco principal, que é nos personagens, seja o angustiado Tenente Gordon (que acaba virando o Comissário Gordon), seja Rachel Dawes, que se divide entre o amor por Harvey Dent e a velha paixão por Bruce Wayne - aliás, um bom trabalho de Maggie Gyllenhaal, substituindo a insossa sra. Tom Cruise, Katie Holmes - que era o ponto fraco do primeiro filme.
Como para reafirmar o foco escolhido pelo diretor, as cenas mais antológicas não são as cenas de ação frenéticas, e sim os embates tensos entre os personagens. Basta ver a cena em que o Batman interroga o Coringa na sala de uma delegacia para se perceber que estamos diante de um filme de heróis completamente atípico.
É um filme denso, realista (na medida em que pode ser realista um filme sobre um cara que se veste de morcego), sombrio - e é um dos melhores filmes do ano.