terça-feira, 3 de abril de 2007
300
Sério, "300" é um inesperado sucesso de bilheteria. O filme de Zack Snyder que conta a história da batalha das Termópilas, entre gregos e persas, parece estar arrastando multidões ao cinema. O que para mim é uma surpresa, por três motivos: 1) o filme se baseia numa HQ de Frank Miller que quase ninguém leu, exceto meia dúzia de fanáticos por HQs; 2) ele não tem sido propagandeado pelos exibidores como um típico blockbuster; e 3) épicos sobre a Antigüidade clássica perderam a força desde que "Tróia" e "Alexandre" naufragaram nas bilheterias.
Então o que explica o sucesso? Vou arriscar apontar dois fatores:
- estética de videoclipe (ou de videogame), muita porradaria, sangue esguichando e cabeças cortadas fazem a festa dos adolescentes;
- a altíssima voltagem homoerótica do filme, que pode ser um gancho para uma enorme invasão gay nas salas de projeção.
Bom, eu vi o filme e tenho que dizer que achei muito divertido, embora eu não seja mais adolescente e tampouco seja gay. Com todo aquele papo de cenários virtuais e fidelidade canina ao material original de Frank Miller eu tive medo que o filme resultasse em algo excessivamente teatral e artificial. Teatral ele é - "This is Spaaaartaaaaa!" - mas o diretor Snyder conseguiu evitar a armadilha do cenário virtual ("olha, tudo foi feito no computador") com o uso de uma fotografia saturada, habilmente desviando a atenção do espectador para as espetaculares cenas de batalha, meticulosamente coreografadas.
Snyder usa e abusa de recursos como câmera lenta e acelerada, pausa no movimento, rápidos giros de câmera e por aí vai, e a trilha sonora com guitarras heavy metal troando deixa tudo com cara de videoclipe, mas um videoclipe muito bem feito.
É claro que o roteiro se desvia totalmente da realidade histórica para incluir inimigos monstruosos, um corcunda deformado que trai os espartanos, um Conselho formado por sábios que parecem o Imperador de "Guerra nas Estrelas" e Rodrigo Santoro no papel de uma versão gigante de RuPaul. Todos estes excessos e maluquices, por incrível que pareça, funcionam a favor do filme e não contra ele. Pretender realismo histórico de um filme com um traveco gigante e guitarras heavy metal é atentar contra o bom senso.
Dito isto, algumas coisas não podem deixar de ser observadas: o filme coloca os espartanos como defensores da justiça e da liberdade, quando na verdade faz propaganda de uma sociedade explicitamente fascista, na qual imperam a eugenia e o totalitarismo do Estado. Além disso, os persas são tratados como inimigos orientais monstruosos e quase terroristas que jogam sujo o tempo inteiro contra a raça branca superior. E o roteiro teve de esticar a história jogando uma trama paralela dispensável envolvendo a rainha Gorgo, de Esparta, que praticamente não aparece na HQ de Miller.
Mas não vale a pena fazer ilações políticas num filme que só tem a pretensão de divertir. E isso ele consegue, com um apuro visual esplendoroso - o contorcionismo flutuante da jovem Oráculo, a belíssima luta entre um lobo (lobo?) e o jovem rei Leônidas, a chuva de flechas que escurece o dia... Momentos de inegável força imagética.
Ah, e quanto ao elemento homoerótico... aposto que este filme vai virar hit na comunidade gay, tamanha a profusão de homens musculosos e suados vestindo apenas uma sunguinha de couro... Se o Village People ainda existisse, não duvido que incorporariam mais um membro (opa!), um espartano mucho macho rebolando e cantando "YMCA"...
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