Um postzinho rápido só pra dar sinal de vida. Uma coisa que eu descobri é que só devo postar coisas tristes quando estiver de bom humor, porque senão fica aquela coisa choraminguenta, repleta de auto-piedade.
Então, como hoje estou me sentindo particularmente azedo, não vou escrever nada sobre isso. Deixo-os apenas com mais uma tirinha do Perry Bible Fellowship.
domingo, 27 de julho de 2008
domingo, 20 de julho de 2008
O Morcego Sombrio e o Palhaço do Caos

Finalmente arrumei um cinema onde não houvesse filas quilométricas para assistir ao mais novo filme do Batman, "O Cavaleiro das Trevas".
E posso dizer que é o melhor filme de super-herói que eu já vi. Christopher Nolan, o diretor, pegou o clima realista e "pé no chão" do primeiro (Batman Begins) e o amplificou à enésima potência. Lá pelas tantas, eu esqueci que estava vendo um filme cujo personagem principal é um sujeito que veste uma roupa de morcego; há todos os elementos de um bom thriller policial no filme de Nolan e as duas horas e meia passam voando.
Quem espera um filme tradicional de super-herói, com montes de efeitos especiais e piruetas malucas, pode esquecer. Nolan mergulha ainda mais no caráter sombrio do Batman, trocando as piadas fáceis por densidade psicológica - é quase um filme de super-herói para adultos, a despeito da idade mínima ser 12 anos. Batman aparece aqui como um sujeito atormentado e no limite da insanidade, dividido entre ser o herói que Gotham City precisa e tentar ter uma vida normal, passando o cetro para outros tipos de herói, como o promotor Harvey Dent, que move uma cruzada contra os mafiosos de Gotham. Mafiosos esses que, em certo momento, acabam por recorrer aos préstimos de um novo e perigoso maníaco - o Coringa.
Com toda a comoção causada pela morte prematura do intérprete do Coringa, o ator Heath Ledger (este foi seu último filme), parece que elogiar a interpretação dele é quase uma questão de noblesse oblige - não se deve falar mal dos mortos. Mas Heath não precisa disso - seu Coringa é o melhor vilão do cinema nos últimos tempos e sua interpretação é verdadeiramente vulcânica. Como o próprio personagem diz a certa altura, ele é um agente do caos - e é isso o que o torna assustador, um punk psicótico cujo único objetivo é causar morte, anarquia e destruição. Ledger imprime essas características ao personagem numa composição cuidadosa, desde a voz até o jeito de andar e a maneira de olhar. Não é à toa que estão falando em Oscar póstumo para o ator.
Isto não quer dizer que ele necessariamente rouba a cena do Batman ou dos demais personagens - Nolan tem extremo cuidado em fazer com que todos os envolvidos na trama deixem sua marca, e nenhuma é mais trágica do que a do promotor Harvey Dent, que ao longo do filme se transforma de paladino da justiça em um homem torturado e à procura de vingança.
Claro que há as cenas de ação, os momentos de adrenalina, mas eles nunca estão lá para roubar o foco principal, que é nos personagens, seja o angustiado Tenente Gordon (que acaba virando o Comissário Gordon), seja Rachel Dawes, que se divide entre o amor por Harvey Dent e a velha paixão por Bruce Wayne - aliás, um bom trabalho de Maggie Gyllenhaal, substituindo a insossa sra. Tom Cruise, Katie Holmes - que era o ponto fraco do primeiro filme.
Como para reafirmar o foco escolhido pelo diretor, as cenas mais antológicas não são as cenas de ação frenéticas, e sim os embates tensos entre os personagens. Basta ver a cena em que o Batman interroga o Coringa na sala de uma delegacia para se perceber que estamos diante de um filme de heróis completamente atípico.
É um filme denso, realista (na medida em que pode ser realista um filme sobre um cara que se veste de morcego), sombrio - e é um dos melhores filmes do ano.
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terça-feira, 15 de julho de 2008
Silêncio
Estou quieto. Lá fora os carros passam depressa, zumbindo. A tela do computador me olha como um enigma. "Decifra-me ou te devoro." Meus olhos vazios fitam o tempo, a noite é cega.
Estou só. Apenas o ruído do ventilador às minhas costas. Nenhuma palavra. Nenhuma voz humana. Minha barba de uma semana coça. Ontem eu matei uma barata. As bitucas de cigarro se acumulam no cinzeiro.
Estou quieto e sozinho. Meu olhar se perde no escuro do céu entre os prédios. Isto deveria ser vida, mas não é. Ainda não sei o que procuro. Não sei o que desejo. E ao me olhar no espelho, rio de mim mesmo, pois estou muito velho para ter dúvidas. Agora que o tempo escava valas profundas em minha pele, agora que tenho contas a pagar, tenho também dúvidas. É patético. É risível.
Mas as dúvidas serão dirimidas, eu sei. Vislumbro ao longe as montanhas da Transilvânia. Não quero voltar para lá. Quero apenas ficar aqui, quieto, vendo a fina fumaça do cigarro subir ao teto. E quero acabar com as dúvidas e voltar ao que eu tinha antes.
Mas escuto a voz do condutor: "Última chamada para o trem que parte para a Transilvânia! Última chamada!"
Os carros zumbem na rua. Ontem uma barata morreu aqui. Olho-me no espelho, hora de fazer a barba. Hora de decidir. Lentamente, caminho até a marca do pênalti e ajeito a bola com cuidado. "Última chamada..." Tomo distância para o chute.
O cigarro acabou.
Estou só. Apenas o ruído do ventilador às minhas costas. Nenhuma palavra. Nenhuma voz humana. Minha barba de uma semana coça. Ontem eu matei uma barata. As bitucas de cigarro se acumulam no cinzeiro.
Estou quieto e sozinho. Meu olhar se perde no escuro do céu entre os prédios. Isto deveria ser vida, mas não é. Ainda não sei o que procuro. Não sei o que desejo. E ao me olhar no espelho, rio de mim mesmo, pois estou muito velho para ter dúvidas. Agora que o tempo escava valas profundas em minha pele, agora que tenho contas a pagar, tenho também dúvidas. É patético. É risível.
Mas as dúvidas serão dirimidas, eu sei. Vislumbro ao longe as montanhas da Transilvânia. Não quero voltar para lá. Quero apenas ficar aqui, quieto, vendo a fina fumaça do cigarro subir ao teto. E quero acabar com as dúvidas e voltar ao que eu tinha antes.
Mas escuto a voz do condutor: "Última chamada para o trem que parte para a Transilvânia! Última chamada!"
Os carros zumbem na rua. Ontem uma barata morreu aqui. Olho-me no espelho, hora de fazer a barba. Hora de decidir. Lentamente, caminho até a marca do pênalti e ajeito a bola com cuidado. "Última chamada..." Tomo distância para o chute.
O cigarro acabou.
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