Eu não ia mais escrever sobre F1 aqui neste blog, mas como o Cockpit está parado e vai passar por uma reforma para a temporada 2010, tenho de comentar aqui o maior escândalo dos últimos tempos na Fórmula 1: o "Nelsongate", que nada mais é do que a confissão feita por Nelsinho Piquet de que o acidente que ele sofreu em Cingapura, na temporada 2008, e que provocou a entrada do carro de segurança, foi causado propositalmente por ele mesmo, sob ordens da equipe Renault, para favorecer o companheiro de time, Fernando Alonso (que acabou vencendo a corrida).
Muita tinta virtual já foi gasta sobre o tema e eu não vou repetir tudo aqui (a esta altura dos acontecimentos, quem não sabe do que se trata pode conferir, por exemplo, neste link).
O fato é que o escândalo acabou derrubando ainda mais a credibilidade da F1, já tão abalada por outros escândalos recentes, e acabou levando à demissão dos dois manda-chuvas da equipe Renault, Flavio Briatore e Pat Symonds. Além de provavelmente ter enterrado a carreira da Nelsinho Piquet como piloto de Fórmula 1.
Duas considerações logo de cara: o que leva um piloto a aceitar participar de uma trama sórdida como essa? E como confiar de novo nos resultados de um esporte no qual, aparentemente, vale tudo para se levar vantagem?
Nelsinho Piquet diz que estava sob intensa pressão da escuderia, que estava "mentalmente frágil" (hum... sei) e que fez o que fez porque achou que isso lhe garantiria mais um ano de contrato. Nenhuma das razões, obviamente, serve para justificar tamanha estupidez. Piquet Jr. me parece ser aquele piloto mimado, filhinho de papai, que sempre teve tudo o que quis (papai Piquet sempre bancou a carreira do filho com equipes próprias) e que, na hora de tomar uma decisão que exigia maturidade, escorregou feio (literalmente). Tivesse um pouco mais de fibra moral e pelo menos teria pensado duas vezes antes de fazer o que fez.
Que Briatore não é lá flor que se cheire é algo sabido e conhecido de todos, mormente aqueles que trabalham na F1. Por mais que eu seja fã de Schumacher, não posso evitar de pensar que pelo menos um dos campeonatos dele, o primeiro, de 1994, pode muito bem ter sido ganho na base da mão grande, já que havia suspeitas na época de que a Benetton usava auxílios eletrônicos proibidos pelo regulamento daquele ano. O que veio à tona no Nelsongate só reforça agora essa suspeita.
A F1 agora terá de lidar com a desconfiança generalizada de todos os que já achavam que o esporte não era lá muito católico. Eu, particularmente, não acho que a F1 seja um antro de mafiosos dispostos a vender até a própria mãe para faturar uns pontinhos a mais no campeonato, mas vai ser impossível ver alguma manobra mais estranha durante uma prova e não pensar: "ih, será que é armação?" Pra piorar, o ex-piloto Eddie Irvine disse que trapaças são coisa corriqueira na F1 e o também ex-piloto (e campeão em 1996) Damon Hill disse que há muita coisa que precisa ser investigada no esporte. Não sei se dá pra levar totalmente a sério o que diz Irvine (ele sempre foi chegado numa declaração polêmica), mas Hill me parece uma fonte mais confiável.
Na verdade, não é de hoje que a bandalheira corre solta na F1. Basta lembrar de episódios do passado, como as batidas intencionais de Senna e Prost, as malandragens de Schumi, o episódio entre Schumacher e Barrichello na Áustria, em 2002, e a sacanagem de Alonso com Hamilton (e vice-versa) em 2007. A diferença, porém, é que esses episódios eram escancarados, estavam lá pra todo mundo ver, e poderiam ser debitados na conta da intensa competitividade que marca o esporte. O Nelsongate foi uma trapaça no sentido clássico do termo, feita por debaixo dos panos e que poderia inclusive ter mudado a história do campeonato do ano passado se a Ferrari não tivesse feito merda com Felipe Massa naquela corrida.
Para piorar as coisas, a FIA resolveu aceitar a inscrição de equipes suspeitíssimas, controladas por grupos ainda mais suspeitos (veja aqui e aqui), dando a maior pinta de que vão aproveitar o automobilismo para lavar dinheiro sujo. Ou seja, a coisa vai de mal a pior.
Piquetzinho e Briatore muito provavelmente encerraram suas carreiras na F1; resta saber até quando iremos esperar pelo próximo escândalo.
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
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