sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Não tem talento? Aprenda a técnica!

Eu me meti neste ofício de escrever já há muitos anos, e, embora minha produção não seja caudalosa, gosto de pensar que o que escrevo ao menos tem alguma arte.

Então, de repente, abro meus emails hoje e dou de cara com um spam que anuncia um "workshop de técnicas para escrever ficção". O remetente é um tal Júlio Rocha, que aparentemente promete ensinar as técnicas dos escritores de sucesso a qualquer um que queira se tornar escritor. Ele ensina como criar personagens "inesquecíveis", como escrever diálogos "inteligentes", como trabalhar sentidos e emoções no texto, e mais um monte de detalhes, incluindo "inícios e finais impactantes".

Em resumo: se você não tem o talento, então aprenda as técnicas e escreva um best-seller.

É um fato que para tudo o que se faz existe uma técnica que pode ser aprendida. Eu não sei chongas sobre conserto de motores, mas posso aprender as técnicas para fazê-lo. Também estou longe de ser um instrumentista, mas qualquer um pode aprender uns acordes básicos e arranhar um violão ou uma guitarra. O problema é que a técnica ensina tudo, menos o principal: a arte. A arte depende do talento.

Quando mais novo, eu tentei pintar quadros a óleo. Meus pais até me ajudaram, comprando uns fascículos que ensinavam o básico da profissão: como fazer esboços, como usar tintas e pincéis etc. Não consegui ir muito além de uma cópia mal ajambrada de um quadro de Van Gogh e de uma natureza morta que parecia particularmente morta (e espero que tenha sido enterrada). Descobri ali que eu era muito melhor ao inventar descrições sarcásticas para os meus quadros do que para propriamente pintá-los. Se eu tivesse persistido, não tenho dúvidas de que conseguiria sair daquele estágio e produzir coisas até visualmente agradáveis. Mas "visualmente agradável" não equivale a "artístico" e eu nunca conseguiria continuar sabendo que não passaria de um pintor medíocre. Eu não tinha talento para a pintura.

E aqui voltamos ao bem-intencionado spam que eu recebi. O sujeito que oferece o workshop está na dele, certamente precisa comprar o leitinho das crianças e esse é um meio válido como qualquer outro. Mas imagine o cidadão que vai a um workshop desses pensando em se tornar o próximo Machado de Assis, só que não consegue criar duas frases minimamente interessantes. Ele vai aprender todas as técnicas, todos os macetes, todas as firulas, e vai... escrever um livro medíocre. Simplesmente porque a verdadeira arte não pode ser ensinada; é uma espécie de dom, ou você tem ou não tem. Pode-se aprimorar o dom, domá-lo, tirar-se dele o melhor proveito possível, mas não se pode simplesmente transferi-lo a outrem como se fosse uma receita de bolo.

E o pior é que as tais "técnicas" para escrever ficção só funcionam para produzir sub-literatura. Nenhum escritor digno desse nome se debruçaria sobre tais técnicas para criar sua obra, simplesmente porque a arte prescinde de regras que podem ser usadas como... bem, como uma receita de bolo. Os grandes artistas se destacaram por produzir obras que desafiaram o senso comum: Monet foi ridicularizado pelos primeiros críticos por seus quadros que pareciam "borrões", James Joyce continua a desafiar leitores no mundo todo com o imortal "Ulisses", Beethoven espantou o mundo abrindo novos caminhos para a música clássica. É óbvio que nem todo artista tem que ser um gênio; há e deve haver espaço para a arte que segue os passos abertos por desbravadores. Mas aqui falamos de arte, coisa muito diferente do que o workshop do nosso amigo Júlio Rocha propõe.

De mais a mais, eu estaria sendo apenas ingênuo se julgasse que todos os que comparecerem ao tal workshop possuem ambições artísticas ou desejam ser "o próximo Machado de Assis". A julgar pelo nível de mediocridade que hoje assola o planeta, é mais provável que eles se contentem em ser genéricos de Dan Brown (aquele do "Código da Vinci") ou apagados imitadores de Sidney Sheldon.

Portanto, sr. Rocha, boa sorte com o seu workshop. Faça-me ao menos um favor: estimule seus alunos a lerem ao menos algumas linhas de Melville, quiçá algumas páginas de Baudelaire, quem sabe alguns parágrafos de Graciliano Ramos. Talvez um deles escape e se torne um artista. Os outros vão se espremer no mercado dos 'Códigos', 'Segredos' e 'Crepúsculos' da vida.

4 comentários:

Anônimo disse...

Meu, vc foi na jugular!

Anônimo disse...

vc é um pseudo intelectual?é o q parece!!!

Anônimo disse...

...também fabricado,medido e calculado...

Unknown disse...

"vc é um pseudo intelectual?é o q parece!!!"

Exato, sou um pseudointelectual que se alimenta de criancinhas no café da manhã. Nham!

"...também fabricado,medido e calculado..."

Minha pseudointelectualidade me impede de compreender o que este excerto de uma frase supostamente completa quer dizer.