Pra mim, houve apenas duas surpresas: a derrota de "Carros" na categoria melhor filme de animação (ninguém vai me convencer que "Happy Feet" é um filme melhor do que "Carros") e a escolha de "As Vidas dos Outros", filme alemão, como melhor filme estrangeiro, derrubando o favoritíssimo "O Labirinto do Fauno", do México. Dizem que o alemão é um filme excelente, mas o "Labirinto" parecia tão vencedor que sua derrota não deixou de ser espantosa, ainda mais se considerarmos que faturou outros 3 Oscars em categorias técnicas. Essa também foi uma péssima notícia para mim, que serei obrigado a comer os meus sapatos e as caixas dos meus CDs (quem leu meus posts sobre os indicados sabe do que estou falando).
Entre as principais categorias, tudo seguiu o script: Helen Mirren e Forest Whitaker confirmaram seus favoritismos como melhor atriz e ator, respectivamente, e "Os Infiltrados" e "Pequena Miss Sunshine" também eram barbadas para os prêmios de melhor roteiro original e roteiro adaptado, respectivamente. Entre os coadjuvantes, Jennifer Hudson ganhou como melhor atriz, o que era esperado, e Alan Arkin foi o melhor ator, desbancando o favorito Eddie Murphy. Não dá pra dizer que a vitória de Arkin foi uma surpresa, contudo, porque estas categorias de coadjuvante são sempre muito abertas e dadas a escolhas inusitadas.
No máximo, a derrota de Eddie Murphy só confirma o quanto a Academia esnobou o musical "Dreamgirls", que não conseguiu levar nem ao menos o Oscar de canção original - categoria na qual ele era considerado imbatível, até por ter três (!) músicas indicadas dentre as cinco que concorriam. A vontade de derrubar "Dreamgirls" parecia tão grande que deram o prêmio para uma canção de um documentário (!), fato raro. E esse documentário, "Uma Verdade Inconveniente", faturou o Oscar, confirmando o prestígio de Al Gore na comunidade de Hollywood. Se o sujeito quisesse anunciar ontem que era candidato à Presidência, como ele quase chegou a fazer numa brincadeira combinada com os organizadores da festa, já teria garantido os votos do pessoal que estava na platéia.
De resto, foi uma cerimônia cansativa, chata - como sempre costuma ser - e mais longa do que a dos últimos anos. Ellen DeGeneres foi uma apresentadora discreta, quase invisível.
Alguns momentos:
- a gritaria daquelas cantoras negras nas três músicas de "Dreamgirls", apresentada como um medley, fez com que eu agradecesse pela existência do botão MUDO no controle remoto. Acho inclusive que o Oscar talvez fosse para uma das músicas, mas todo mundo mudou de idéia na última hora, depois de ver aquele festival de gente com dor de barriga berrando descontroladamente;
- a cara de Peter O'Toole quando anunciaram a escolha de Forest Whitaker como melhor ator foi impagável. O inglês não parecia acreditar que tinha sido mais uma vez desprezado pela Academia - é a oitava vez que ele sai de mãos abanando, um recorde entre os atores.
- impagável também foi todo mundo fazendo cara de conteúdo enquanto Ennio Morricone agradecia seu Oscar honorário - em italiano. Clint Eastwood, ao lado dele, traduzia os agradecimentos, mas quando Morricone falava era muito engraçado ver as caras do pessoal fingindo que entendia - e alguns, como Ken Watanabe, com cara de "what the fuck?".
Olha a alegria do Scorsese, que finalmente teve seu talento de diretor reconhecido pelo Oscar

